Viajando de cabeça fresca

tradução por Beto Palaio
 

Littera Tour,

Edição 12 - Janeiro/ January  2009
 

Navegar a Vontade
 

 

Ele acendeu meu cigarro mesmo não querendo que eu fume. Ofereceu-me bebidas a noite toda e, embora nunca reclamasse, achava que eu bebia demais. Fazia já quatro meses desde que tínhamos saído pela última vez. Ele ainda me parecia atraente, mas não uma pessoa feliz. Eu ficava sorrindo, mas tudo soava muito falso. E assim eu ficava me perguntando do porque das coisas nunca darem certo entre nós.

 

“Você gosta de Nova Orleans?” Eu perguntei. Ele balançou sua cabeça: “eu gosto mesmo é de Memphis. E acho que você também iria adorar Memphis".

 

Mas eu adoro Nova Orleans. Eu nem me imagino estar longe daqui.

 

“Você acha? Bem, eu gostaria de visitar Memphis algum dia.”

 

Estar bebendo depois da meia-noite em um bar lotado e cheio de fumaça tem uma aptidão especial para transformar pequenas intenções em algo mais elaborado

 

“Nós poderíamos ir de carro até Memphis agora à noite e você voltaria de trem amanhã,” Ele sugeriu.

 

“Você acha?” Aquilo parecia mais com uma aventura, a qual não estava muito interessada.

 

Saindo do The Abbey eu acenei para um amigo que estava encostado num poste de iluminação. “Aonde você vai?” Ele perguntou. "Para Memphis" Eu disse com um sorriso sem graça.

 

Estava escuro ainda quando saímos da cidade de Nova Orleans.

 

Acordar dentro de um carro é algo estranho. O sol da manhã brilhando sem piedade despertou o meu embaraço. Eu fiquei um tempo desconsolada,com os olhos fixos no alvo vinil do estofamento.

 

“Nós já estamos quase lá,” ele disse.

 

Minha cabeça martelava. Eu tentava engolir, mas minha boca estava seca.

 

Nós chegamos à uma antiga casa vitoriana que, apesar de estar pedindo reparos, mostrava ainda seus encantos. No pátio de entrada um piano vertical estava todo coberto.

 

Uma vez lá dentro a minha ansiedade se intensificou. Eu só pensava no meu trabalho no dia seguinte:

“Quando sai o trem para Nova Orleans?”

 

Mas seu tom era despreocupado. “Oh, até esqueci de mencionar, não circulam trens aqui aos domingos.”

 

Eu passei a ame sentir como uma ave engaiolada. Aflita eu procurava pelas saídas, donde contemplava minha fuga. “O quanto eu o conhecia de verdade? Como é que eu fui colaborar para meu próprio rapto? Seria desta forma que os assassinos seriais arrebatam suas vitimas?”

 

Reagindo a meu estado aparentemente descontrolado, ele trouxe-me um Valium e um copo d´água. “Não se preocupe,” ele disse. “Eu a levo de volta daqui a pouco, depois que eu tirar uma soneca.”

Eu mirei seus olhos, procurando por traços de sinceridade por trás das íris.

 

“Confie em mim,” Ele inclinou-se, apontou para um guarda-roupa e disse, “lá tem alguns vestidos que podem caber em você”. Ele não parava de esfregar sua cabeça: “Eu preciso ir para a cama.”

 

Caindo no meu estômago vazio o Valium agiu rapidamente. Sozinha no quarto, eu decidi espreitar o guarda-roupa. Havia ali alguns vestidos florais de algodão, mas algo chamou mais a minha atenção. Eu retirei de lá um antigo vestido de noiva; onde um velho laço tinha amarelecido com a idade. Era muito bonito e pedia para que eu o experimentasse. Estando de frente para um amplo espelho, eu olhei fixamente para mim mesma, já dentro do vestido.

Súbito, sua voz até me assustou: “eu fico contente que caiba em você,” ele disse.

 

De volta à Nova Orleans, eu me vi às voltas com uma velha fita cassete que ele havia me dado um pouco antes de sairmos e que não ouvira até então. Estava espantada em vê-lo cantar sobre estar levando uma garota numa certa manhã para Memphis, com uma letra escrita bem antes desta nossa louca aventura ter acontecido.

 

***

©2008 kristin fouquet

 

Kristin mora em Nova Orleans e nasceu no dia do

falecimento de Jimi Hendrix. Nunca tocou guitarra, mas

escreve contos, poemas, faz pinturas e é fotógrafa.

 

 

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